sábado, 22 de janeiro de 2011

Um Passeio Repentino *

"Quando à noite parece ter-se tomado a decisão definitiva de permanecer em casa, vestiu-se o roupão, depois do jantar ficou-se sentado à mesa iluminada, às voltas com aquele trabalho ou jogo ao término do qual habitualmente se vai dormir, quando lá fora há um tempo inamistoso que torna natural permanecer em casa, quando já se passou tanto tempo quieto à mesa que ir embora teria de provocar espanto geral, quando até as escadas já estão escuras e a porta do prédio fechada, e quando apesar disso tudo, num mal-estar repentino, fica-se em pé, troca-se o roupão, surge-se imediatamente vestido para ir à rua, se esclarece que é preciso sair, faz-se isso depois de breve despedida, acreditando-se ter deixado maior ou menor irritação conforme a rapidez com que se bate a porta do apartamento, quando se está de novo na rua com membros que respondem com uma mobilidade especial a essa liberdade inesperada que lhes foi concedida, quando se sente, através dessa decisão, concentrada em si mesmo toda a capacidade de decidir, quando se reconhece com um senso maior que o comum que se tem mais energia do que necessidade de produzir e suportar a mais rápida das mudanças, e quando assim se vai às pressas pelas longas ruas - então por essa noite está-se totalmente desligado da família, que desvia seu rumo para o inessencial enquanto, firme de alto a baixo, os contornos com as linhas carregadas, dando tapas na parte traseira das coxas, ascende-se à sua verdadeira estatura.

Tudo fica mais reforçado quando, a essa hora tardia da noite, se procura um amigo para ver como ele vai."

Franz Kafka... tradução de Modesto Carone...

* auf Deutsch in den Kommentaren unten...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Pescadores e pecadores.

"E pensaram naquele estranho homem que passara há pouco por ali pedindo para que fossem com ele. E riram folgadamente. O tal homem, curioso homem, disse que os faria pescadores de homens.

O riso se pegou em seus lábios porque não entenderam como poderiam pescar algo que não fosse peixe. Também não entendiam como poderiam, sem rede, sem vara, pescar não para a morte, mas para a vida. E riram um riso gostoso."

Laura Cielavin...


filho de peixe...

"desde criança, sempre acompanhava seu pai à feira... à princípio, ia somente nos finais de semana e durante as férias escolares... e ficava por ali correndo para lá e para cá com os outros meninos e meninas enquanto seu pai vendia seus peixes... quando este não estava gritando para chamar sua atenção, dirigia seus gritos às mulheres bonitas que por ali passavam... "mulher filé não paga o filé..." algumas, encabuladas, olhavam para baixo rindo... outras caíam na lábia do feirante e iam dar uma olhada no seu filé... à medida que o tempo foi passando, o garoto começou a ir com mais frequencia e a ajudar seu pai nas vendas... depois de anos ouvindo as técnicas de marketing do seu pai com as freguesas, começou a fazer uso delas também... sem se dar conta, havia se transformado em um feirante, da mesma forma como havia acontecido com seu pai, que também havia começado ajudando seu progenitor naquela mesma peixaria volante... não havia muita opção de mudança, na verdade... era sua única forma de sustento, e era um trabalho árduo... a cada dia, depois de madrugarem, montavam e desmontavam a barraca em diferentes pontos da cidade... e assim não sobrava muito tempo para os estudos... mas, ao contrário do seu pai, havia terminado o ensino fundamental e o ensino médio... mas, para ele, já era mais do que o suficiente... afinal, não necessitava de mais do que isso para estar ali na feira, seguindo os passos do seu verdadeiro mestre... "olha o filé!! mulher bonita não paga... mas também não leva..." e assim ia jogando sua própria rede, fisgando clientes e vendendo seus próprios peixes..."
Tiago Elídio...

Foto: Tiago Elídio / Feira da Rua dos Artistas, Rio de Janeiro...

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"elas subiam em direção à basílica de notre-dame... não estavam indo rezar, afinal não entrariam nesse templo sagrado do cristianismo... eram muçulmanas... seu deus era Alá e seu profeta Maomé... como tradicionais fiéis islâmicas, iam vestidas com a burca... era o último dia que lhes era permitido usar tal vestimenta em público em solo francês... e era justamente por isso que caminhavam rumo à igreja, pois era lá ao seu redor que estava o ponto mais alto da cidade... era sua última possibilidade de dar um passeio e contemplar aquela bela paisagem vestidas daquela forma... no dia seguinte, já não poderiam mais fazer isso... caso contrário, seriam multadas pelo governo... mas elas se recusavam a abandonar essa roupa... se assim o fizessem, iriam se sentir completamente envergonhadas e indignas por causa desse desnudamento... restava-lhes, portanto, ficar dentro de suas casas... como prisioneiras de si mesmas... mas já estavam acostumadas a isso, de certa forma... desde que nasceram, não tinham nem voz nem rosto... essa submissão já estava colada em seus corpos... não era possível mudar isso de um dia para o outro, da água para o vinho... nem como quem troca de roupa... afinal, elas não mudavam nunca o tipo de roupa... talvez suas filhas e netas, por nascerem em um país com uma cultura distinta, passassem a adotar outros hábitos e, assim, ter mais voz, mais liberdade... seria uma mudança geracional... para elas, isso já não era mais possível... as leis do governo francês não se sobreporiam às leis do Alcorão... por isso, aproveitavam esse belo dia de sol para caminhar e apreciar a linda vista da cidade... pela última vez..." *
Tiago Elídio...


"Vendo vocês duas aí, olhando a cidade que não é sua nem de seus filhos, mesmo que eles tenham nascido aqui. Esse véu que cobre vocês, vítimas inocentes, é que separa a pertença. A negação de viver onde se está e a reciprocidade da cidade. Ela nega a vocês o seu melhor pedaço. Viver fora desse mundo em que vocês entraram e procriar nesse espaço é seu erro e sua força de combate. Seus filhos odeiam e são rejeitados. Eles são uma parte ativa desse exército de pseudo-franceses. Infelizmente também vivo nessa negação. Nego que não vejo mal algum em vocês. Sou silencioso, como um gato, e termino em um silvo, desapercebido. Agora que eu tenho vocês na minha mira posso começar o meu trabalho. Inshalá."
Fernanda Vilar...


Foto: Tiago Elídio / Lyon, França...

*versión en español abajo en los comentarios...