quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013





















Foto: Fernanda Vilar


"Parecia bem mais complicado na época do Cortázar, toda aquela história para passar de uma janela a outra um pacote de mate. Mas fazia calor, ninguém queria descer as escadas e chegar ao outro prédio. Por isso colocamos a tábua para que a Maga fosse levar o chá. Estava saindo de casa, já com a mochila nas costas, quando vejo as roupas estendidas do lado de fora. A Maga levou a chave. Cortázar morreu. Eu continuo aqui na França. E sem um cronópio para me ajudar a pegar essas malditas roupas. Um fama brincalhão tira fotos sem parar da minha tentativa frustrada de pegar essas roupas. Passei anos dizendo ser eu o filho de Cortázar, vivi com a Maga e uso o cabelo e a barba como os de meu criador. Gigantes são assim, não espalham sua grandeza. E eu precisava subir em suas costas. Pegar as suas roupas. O dinheiro acabou. As roupas eram para o leilão. Agora já nem restam as esperanças. O quanto vale ter sido captado por um fama, sendo eu Horácio, tentando pegar as roupas do autor? Ei, você, quer comprar essa foto?"

Fernanda Vilar

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o andarilho ladrão...


"ia de cidade em cidade, sem rumo certo... nas costas, apenas sua mochila, onde levava somente o necessário... afinal, o mais importante já tinha guardado dentro de si, suas experiências e suas lembranças... levava também um violão, para sentar em alguma praça movimentada e ganhar algumas moedas, que não significavam nada para muitos... mas, para ele, serviam para muito... com elas, alimentava-se, alojava-se e continuava se movimentando... muitas vezes, encantava alguma jovem local com sua música sedutora... e se beneficiava então de algumas agitadas noites de sexo antes de rumar a outra direção, deixando outro coração partido pelo caminho... o que elas não sabiam é que, além de seus corações, ele também costumava roubar roupas... sim, era um jovem larapio e isso fazia parte do seu espírito aventureiro... assim, sempre que via roupas estendidas em algum varal, seus olhos brilhavam igual a um cão que fareja seu alimento... então, à espreita, observava se não havia nenhuma testemunha por perto... depois, analisava se algo lhe serviria... como tinha uma estatura mediada, era fácil encontrar algo que lhe fosse útil.. e como tinha muita experiência, apoderava-se da roupa alheia muito rapidamente... mas ele tinha uma regra própria para esse seu pequeno delito... somente roubava uma peça por cidade, para não chamar a atenção e passar despercebido... funcionava muito bem... muitas senhoras, donas de casa, achavam que estavam ficando caducas e não sabiam onde tinham enfiado suas peças de roupa... mal sabiam elas que as antigas vestimentas de algum membro de suas famílias já estavam bem longe... indo de cidade em cidade, sem rumo certo..."

Tiago Elídio...